Manhã de Domingo

Aquela era uma bela manhã de domingo em que ambos acordaram com um belo sorriso nos rostos e declamando o amor um ao outro, a beleza do dia iluminado, ao café levado na cama e a vida. Era como faziam aos domingos: ele ia rezar na capela construída em frente de sua casa; ela ia pro banho e consequentemente retocar a beleza com aqueles trajes que deixava seu amado radiante perante tanta formosura. O casal cumpria à risca o que era planejado ao celebrar a riqueza da união e da beleza harmônica da existência.

Era costume do casal que ao chegar naquela pracinha, na qual tinha um belo e esplendoroso lago, ele descia do carro e lentamente abria a porta para que sua amada brilhasse em encanto, enchendo-lhe o coração de felicidade. Quando tudo parecia estar na monotonia do planejado, algo surpreendente tocar-lhe-ias o coração, outro casal com olhares de curiosidade se aproxima e começam a conversar.

Num determinado momento, uma atitude daquele casal chama a atenção dos jovens, que mesmo percebendo todo um grande amor expressado seja na forma do olhar, do carinho, das palavras e nas atitudes, parecia que a sensação de tanta meiguice escondia uma dor que pulava do peito e da alma.

Após os casais terem passado juntos aquela manhã do domingo, uma coisa boa tinha marcado a vida de cada um. Um elo especial que produziu a vontade de se fazer e de vivenciar uma amizade na mesma medida, com trocas de experiências de vida e de práticas cotidianas. Eram marcantes os semblantes dos jovens, pensavam ter encontrado: a fórmula do amor, do companheirismo, do respeito, da fidelidade, do carinho e longevidade.

O casal mais velho e os jovens resolveram se encontrar outras vezes. A partir daquele momento de exaltação a felicidade, onde a experiência era a lição e estímulo; o casal tentava expressar uma aparência que não era a totalidade do que os jovens pensavam. Os encontros dos casais amigos seguiam a risca aos combinados e foram muitos até que se criasse um elo de respeito e até familiar, devido à diferença na idade dos casais.

Certo dia, o jovem casal propôs mudar a rotina e, ao chegar na casa do casal mais velho, percebe algo muito estranho. A porta estava aberta e que, por isso, dava-se pra ouvir sussurros agonizantes de tristeza, cuja intensidade varavam as paredes do quarto harmônico.

Impressionados, os jovens não resistiram, entraram na casa com passos lentos e em seguida subiram a escada que levava a tal situação desconhecida. Próximo do quarto dava-se pra ouvi o que lá diziam e era algo que mudaria a vida de todos. A partir daquele momento, uma transformação era inevitável.

As paredes minavam de lágrimas como resultado das horas de choro, pois naquele dia 14 de dezembro, fazia 20 anos do sumiço do filho. Todo o sofrimento tinha começado em uma bela manhã de domingo, na época, eles eram jovens recém-casados e como de costume levavam o seu filho recém-nascido para a pracinha. Mas, para a tristeza do casal, naquele dia o filho repentinamente desapareceu.

Ao longo dos anos, os mesmos lutaram juntos na busca do filho desaparecido. Inicialmente procuraram a polícia, mas nada de resultados, então resolveram manter a rotina e que durante os 20 anos faziam as mesmas coisas. Havia sempre a esperança do retorno do filho para que fosse extinta a dor da saudade.

Justamente naquele dia, eles resolveram não sair de casa; nem ele foi à capela rezar pela volta do filho e nem a senhora foi arrumar-se para ficar deslumbrante para receber o filho, eram como eles faziam todas as manhãs de domingo.

Depois de certo tempo, os jovens resolveram entrar quarto e viram aquelas pessoas reconhecidas como exemplares tristes e que ao mesmo tempo, surpresos, pois não os esperavam naquele dia. Os jovens olharam para o casal, que no momento encontrava-se abraçado num ato abençoado de companheirismo e de amor, e confessaram ter ouvido todo teor da conversa. Disseram ser admiradores de tanto companheirismo e amor sincero; uma importante referência que aquele casal de senhores representavam na vida deles.

O senhor e a senhora, logo, agradecem as palavras de reconhecimento e confirmam o motivo de suas tristezas. Não sabiam que o filho estava mais próximo do que eles ali pensavam. A namorada do rapaz começa a perceber a semelhança entre a história que o rapaz sempre contava-lhe e aquele acontecimento. Ela começa a contar que há 20 anos, os pais adotivos do rapaz encontraram uma criança, que alguém tinha deixado na porta de sua casa e que criaram como se fosse filho.

Depois que cresceu, o jovem soube da verdade e quis procurar os pais biológicos, busca que terminou sem sucesso. Naquele momento o rapaz estava em prantos, mal conseguia falar, mas com gestos confirmava aquela história que por várias vezes contou a namorada. Ao ouvi tal relato da jovem, o casal que naquele momento já tinha perdido a esperança de o reencontrar, conseguiu ver o retorno do filho naquela manhã de domingo.